Jarboe

JARBOE

Esta entrevista pertence aos nossos arquivos. Foi realizada aquando da vinda de JARBOE ao FADEINFESTIVAL 2005 e publicada originalmente no Jornal de Leiria. É curioso verificar, agora à distância, que Jarboe estava errada quando imaginava que os Swans jamais voltariam a fazer um disco. Não só editaram mais um, como o fizeram de contornos rock… Uma entrevista cheia de pormenores que vale a pena recordar e que aconteceu numa altura que também não imaginávamos possível ver Michael Gira em Leiria, o que veio efectivamente a acontecer, mais tarde, no FADEINFESTIVAL 2008!

“SOU PROFUNDAMENTE ESPIRITUAL”

Misteriosa e sensual, Jarboe foi, com Michael Gira, co-líder dos Swans, uma das bandas ícones da “no-wave” nova-iorquina. No FADEINFESTIVAL 2005 faz-se acompanhar por músicos de excelência, dos quais se destaca, Paz Lenchantin dos Zwan e A Perfect Circle (PS: ela que mais tarde se tornou baixista dos Pixies). Jarboe promete um espectáculo de rock vanguardista, com o habitual forte componente performativo que a caracteriza.

JARBOE NA DIAGONAL: Mais de vinte discos editados com a sua banda Swans, cerca de uma dezena a solo, e quase três dezenas de colaborações noutros discos de bandas como Neurosis, Neotropic, Larsen ou A Perfect Circle. O respeito de que goza no meio musical é tão grande que foi-lhe fácil convocar, para participarem no seu novo disco, músicos de bandas como Einsturzende Neubauten, David Bowie, Bauhaus, David Sylvian, Ministry, Bjork ou Current 93. Possui personalidade vincada, e a sua obra, por ser notável, já foi retractada em vários livros. É uma mulher felina que em palco transpira sensualidade…

JarboeA primeira e única vez que esteve em Portugal foi para uma actuação no Museu de Arte Contemporânea, no Porto, a convite da Fundação de Serralves. Com que impressão ficou?
Fiquei com a impressão de pessoas calorosas. Foi um momento memorável, sobretudo porque no local onde actuei senti um enorme respeito pela arte e pelo artista.

A sua obra e as suas performances foram retractadas nos livros “Angry Women in Rock”, de Andrea Juno, e em “Catamenia”, de Adele Olivia Gladwell, onde a autora teoriza sobre mulheres que se destacaram pelos seus legados artísticos personalizados. Considera-se uma artista, digamos, fora do sistema?
Olhe, se está referir-se aos aspectos que se concernem com a vigência dos hábitos da própria industria musical, então sou, definitivamente, uma “outsider”, até porque não compactuo com a maior parte das normas que regem esse sistema. Se está a referir-se a aspectos meramente artísticos, também, até porque vejo o meu trabalho como uma espécie de arte performativa e não apenas musical.

Quais as coisas mais significativas que recorda do tempo dos Swans?
São demasiadas para as referir todas! Mas acho que uma das coisas mais importantes que recordo, foi a aprendizagem que fiz a objectivar e a concentra-me no trabalho. Tudo o que faço actualmente é intencional, ponderado, e honesto…

Acha que se os Swans ainda existissem fariam um disco na linha daquele que você gravou com os californianos Neurosis?
Não. Acho que não. O Michael Gira anda a fazer música que a mim me soa a country, por isso penso que se os Swans editassem agora um disco novo seria desprovido dos componentes rock. E esses são o meu veículo de expressão, e não os dele…

No seu novo disco, “The Men Album”, conta com colaborações de Blixa Bargeld (Einsturzende Neubauten), Alan Sparhawk (Low), David J (Bauhaus, Love and Rockets), e muitos outros. O que a motivou a convidá-los?
São basicamente todos meus amigos. Para além de admirar os seus trabalhos, sinto que são todos músicos com os quais tenho ligações de grande cumplicidade artística…

Na Internet podemos encontrar fotos de Maynard James Keenan a beijar os seus pés. A admiração é recíproca?
Trabalhei com ele num dos discos dos A Perfect Circle e também aprecio o seu trabalho nos Tool. Além disso é uma pessoa de humor refinado e muito divertido. Respeito-o bastante.

É verdade que algumas tipografias se recusaram a fazer as capas do seu álbum “Anhedoniac” devido às fotos que Richard Kern lhe tirou? São assim tão perturbadoras?
Sim, isso aconteceu na edição original desse disco. Essa versão está apenas disponível através no meu site (www.thelivingjarboe.com) e inclui, entre outras, uma foto frontal da minha vagina envolvida por um cinto de castidade pregado por ganchos ferrugentos. Há cortes profundos e muito sangue. Considero realmente que são imagens extremas que não estão presentes na reedição que o disco teve através da Atavistic.

O que é que lhe aconteceu no dia 11 de Março de 2001?
Sinceramente não faço ideia. Acordei no hospital com o crânio fracturado e com danos cerebrais. Estava em total amnésia. Os neurocirurgiões disseram que se não chegasse ao hospital em 45 minutos, estaria morta. Alguns disseram que jamais voltaria a cantar. Provei que estavam errados. Para além disso consegui também superar os ataques resultantes dos danos que sofri.

A sua obra reflecte maioritariamente sobre a vida e as suas infinitas variáveis. É no Budismo que encontra as respostas que procura?
Sim, de facto tenho apreendido muito com o Budismo. Tem sido o caminho que me tem ajudado mais nalgumas questões, sobretudo no que diz respeito às ligações e ao modo como vejo a vida física. Ajuda-me a lidar com a sua condição finita e com todas as emoções e conflitos inerentes a essa mesma condição. Tive uma infância católica e por isso sempre fui uma pessoa profundamente espiritual…

Conhece algumas das outras bandas que já tocaram no FADEINFESTIVAL?
Claro que sim! Até a nível pessoal, como são os casos dos Laibach, de Tony Wakeford e os seus Sol Invictus, ou dos Xiu Xiu, com quem, aliás, já toquei ao vivo…

O que é que podemos esperar do espectáculo do próximo dia 1 de Novembro? Vem acompanhada de excelentes músicos…
Será uma abordagem avantgarde do rock. Vamos ter duas baterias em simultâneo e um baixo muito marcante como nas raízes dos Swans. Mas será numa aproximação mais moderna e à imagem da minha obra. A minha performance explorará os diversos aspectos psicológicos da personalidade humana.

CARLOS MATOS

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