Nice Weather For Ducks

NICE WEATHER FOR DUCKS
Quack!
Onmichord Records / Optimus Discos, CD  2012

ATENÇÃO QUE ESTE DISCO É SÉRIO E É A SÉRIO UM GRANDE DISCO!

Por detrás de uma capa com um grande “Quack!” que irrompe como se de uma explosão se tratasse, está um disco mais sério do que a cacofonia, que nos remete, obviamente, para o nome da banda, nos faria supor. Mas é esta despretensão (se for estratégica é genial, se for inocente é apaixonante) que torna esta jovem banda, “formada nos arrabaldes de Leiria”, em qualquer coisa de verdadeiramente especial. A maturidade das composições dos 10 temas do álbum de estreia dos Nice Weather For Ducks (NWFD) é algo que não acontece por acaso e muito ocasionalmente acontece a qualquer banda. O jogo soberbo de vozes, os ritmos desconcertantes (longe das “metronomias” clichés de qualquer banda imberbe), o arrojo do baixo e das guitarras em prol de melodias intrincadamente pop (sem ser do barato e descartável) e teclas simples mas tão implacavelmente cirúrgicas, fazem de “Quack!” um disco de uma banda a quem temos de, com vénia, tirar o chapéu.

Os seus 37 minutos passam num pestanejar e é sem qualquer pudor que tendemos a voltar a ouvi-lo, sempre na esperança de descortinar um qualquer pormenor que nos tenha escapado. “2012” (ou “Twenty Twelve”) é, provavelmente, um dos singles mais épicos da música feita em Portugal. Bastam 7 palavras monossilábicas para que decoremos a letra: “We will not take part of it” – declaram os NWFD num claro desafio às teorias esotéricas/religiosas que defendem que o mundo acabará em Dezembro próximo. Na palete de cores da banda encontramos tonalidades que variam do amarelo-torrado de África ao branco gélido da América do Norte . No caso de “Back To The Future”, em que um propagado “The World Is Big But We Make It Small” se torna paradigmático, a sonoridade remete-nos para um qualquer país de temperaturas outonais e de nevoeiros frequentes. É logo aqui que começamos a perceber que esta banda não é uma qualquer brincadeira de putos.

“Easier”, “109 Beach” (com a vocalização de Bruno Santos a remeter-nos para um timbre a meio caminho entre David Fonseca e James “Xiu Xiu” Stewart, e com uma toada de “guitarras do Mali”, num tema que, paradoxalmente, pouco tem de solarengo) e “Primal Connection” (com um final de guitarras à lá The Allstar Project – terá sido João Santos, o produtor deste disco e também músico dos TAP, alheio a isto?) confirmam o que começáramos a desconfiar mal ouvimos os dois temas de abertura: isto não é um fogacho de labareda efémera!

Seguimos com “Little Jodie” e aqui a voz de Luís Jerónimo remete-nos imediatamente para o universo dos Parenthetical Girls (a mesma sensação ocorre quando ouvimos parte de “Duck Tales”), banda que (sabemos de fonte fidedigna) lhe é muito querida. De resto é natural que se reflictam, aqui e ali, algumas das (boas) influências que assolam os NWFD. Arcade Fire, Vampire Weekend, Foals e Animal Collective são outros dos nomes que, amiúde, nos vêm à cabeça… “Our Own Winter” é, talvez, o tema mais introspectivo do colectivo, muito longe das cores quentes que banham a capa do mesmo (já agora, assinado pelo extraordinário designer de créditos firmados, João Diogo). “Duck Tales” é o maior tema do disco e volta a colocar os NWFD na senda épica, entre a guitarra de dedilhado merengue e os coros de afinações uníssonas. Mais um dos muitos momentos que se nos colam ao cérebro como os caramelos nos dentes (sim eu sei que já escrevi isto acerca dos Nice Weather…).

Reservado para o final do disco estão os dois temas preferidos deste vosso humilde escriba: “Bollywood “ tira-me do sério! Tem tudo. Desde o psicadelismo de reminiscência folk, passando pelo frenesim rítmico (que, não sabendo porquê, me remeteu para os Hatcham Social), culminando numa sequência vocal “wicca” a lembrar os nipónicos Boredoms. Soberbo! Os 37 minutos do disco atingem-se quando finalizamos a audição de “Fang O Buego”, uma marcha genial de vociferações indecifráveis, como se todos os elementos da banda se transformassem em pequenos duendes em protesto com algo que desconheço, e com guitarras de dedilhados mediterrânicos a levarem-nos até nenhures… ali, algures entre a Sardenha e a Sicilia… Atenção que este disco é sério e é a sério um grande disco! – em Portugal ou em qualquer parte do nosso planeta. A não perder a sua apresentação ao vivo, dia 25 de Fevereiro, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, com os franceses John & Jehn, na abertura do FADEINFESTIVAL 2012.

CARLOS MATOS*

*Carlos Matos escreve segundo as regras anteriores ao (des)acordo ortográfico