Yesterday

YESTERDAY
You Are The Harvest
Self-release CDr 2011

O DISCO MAIS BONITO E MÁGICO JAMAIS FEITO EM LEIRIA

Aviso prévio para que seja, desde já, muito claro: “You Are The Harvest”, o novo trabalho de Yesterday é, indiscutivelmente, o disco mais mágico e bonito que alguma vez ouvi de um compositor leiriense e é, sem restrições de qualquer ordem, eleito como um dos discos nacionais com maior personalidade e propensão artística de sempre. É claro que esta é a minha opinião e é claro, também, que o que escreverei sobre este disco, não o tornará, infelizmente, mais conhecido…


Yesterday, que a sombra teima em manter na penumbra, não é algo que aparece do nada, embora o hiato a que Pedro Augusto (o multi-instrumentista e mentor do projecto) se remeteu após a sua participação no Fadeinfestival 2004 e a sua vitória no Termómetro Unplugged 2006, nos possa fazer parecer. É que nem o seu trabalho de 2009, “Eu já cá estive antes”, todo cantado em português, levou o músico a sair da toca, ele que, quiçá num gesto de hedonismo muito particular, nem sequer “publicitou” a existência desse registo…


Chegamos assim a “You Are The Harvest”, um disco de pop misteriosa, feito de canções tecidas por indeléveis programações electrónicas e de teclados com soluções elegantes e harmoniosas. A voz de Pedro Augusto (que muitas vezes de desdobra em delicados coros) é aveludada, quase sussurrada, e é uma das imagens de marca deste ressuscitar fulgurante de Yesterday. O primeiro sinal de agrado pelas canções de Yesterday é dado pelo corpo que se sente logo estimulado aos primeiros acordes e que em nenhum momento dos 33 minutos das 10 canções que compõem este disco mostra sinais de desconforto ou rejeição. A “velocidade” com que passa o tempo é outro sinal premonitório de que algo aqui está correr muito bem.


“The Calling”, o tema de abertura, dá o mote para o ambiente geral do disco. Vocalização inventiva, ambiente com algum empolgamento rítmico, e letra num inglês bem escrito. “The Trip” segue a mesma estirpe estética mas acrescenta-lhe uma guitarra típica de cantautor sem, contudo, fechar demasiado a música no formato comum a esse universo de artista solitário. “I already feel the pain of goodbye” é uma das muitas frases bonitas que se cantam neste disco. Chegamos a “We Are The Trees” e encontramos o primeiro momento em que o compositor revela o seu estado de maturidade. Tudo nesta canção é perfeito. As melodias, as vozes, as mudanças que se operam, com espaço, sem nuances abruptas… Aliás “espaço” é de novo o substantivo que nos ocorre em “The Promise”. É espantoso o espaço que existe em canções de relativa curta duração. A forma como estão compostas, sem precipitações de qualquer ordem, são sinais evidentes da vincada e já referida maturidade composicional de Pedro Augusto.


“The Movement” é o tema mais “nervoso” do disco. É o que tem o ritmo mais dançável se bem que aqui o termo dançável não seja mais que induzir um ou outro pé a um batimento inadvertido ou um leve abanar de cabeça sincopado de forma quase inconsciente. “This Is not you” realça as soluções electrónicas de Yesterday e sublinha as apetências vocais de toada delicada e suave que pairam nesta obra. “I am hanno” é um lindíssimo tema ambiental que deambula com trocadilhos feitos com as palavras do título. Chegamos ao tema homónimo do álbum: “You Are The Harvest”. Por esta altura já estamos francamente arrebatados e rendidos ao disco, mas este tema leva-nos ao tapete e vence-nos por K.O. técnico. A toda kraut do ritmo, as melodias fantasiosas e mágicas (na verdade, há um misticismo neste disco que nos remete para um imaginário território florestal povoado por duendes e criaturas de feições maravilhosas e inexplicáveis) forçam-nos a vénia e deslumbram-nos completamente. “Hibernation”, com os seus quatro minutos e trinta, para além de ser o mais longo do disco, é o tema que mais se aproxima de um ambiente angélico e celestial. A voz ganha um estranho contorno litúrgico que nos aproxima de uma espiritualidade e paz de explicação difícil. Todas as músicas de natal deveriam ser assim! E a letra… Tão simples e tão bela: “Hibernation until I see you. I only feed off words until I see you”… A canção mais colorida e de formato mais convencional fecha o disco: chama-se “Riding our bicycles” e é um delicioso e suculento pedaço de pop sumarenta e adocicada, sem contudo, pertencer à família das pops que enjoam ou provocam congestões…


Pedro Augusto criou um disco que cresce e se revela a cada audição, muito longe, portanto, dos cânones da música descartável de consumo imediato, mas também não confinado num intervalo hermético de um qualquer exercício de masturbação intelectual inacessível ao comum dos mortais. Volto a repetir: este é um disco mágico e bonito. E acrescento: deveria ser de audição obrigatória. “You Are The Harvest” é uma obra com potencial comercial? Não. Mas é um disco com um potencial emotivo como em poucos ouvi. E será agora que Yesterday “dará o salto” e ficará conhecido? Não. E nem precisa. Música tão boa como esta não é para se desperdiçar por aí em ouvidos que não merecem…

CARLOS MATOS*

*Carlos Matos escreve segundo as regras anteriores ao (des)acordo ortográfico

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