MÚSICA OBLÍQUA

Por PAULO VICENTE

Música Oblíqua é um exercício de escrita livre da autoria de Paulo Vicente. Pode ser uma viagem rápida ao passado, de encontro a uma qualquer pérola perdida, obscura ou, simplesmente, arredada dos holofotes (acidentalmente ou não). Pode ser também uma incursão a um clássico imprescindível que se recupera, ocasionalmente, do escaparate. E pode ser ainda a sugestão de um qualquer contemporâneo de audição obrigatória, não importa o território ou o credo estético. Contudo, será (quase) sempre uma elaboração de texto curto e fruto de uma visão (muito) particular do autor.

SOBRE “RORSCHACH TESTING” DE CLICK CLICK
SOBRE “MANAFON” DE DAVID SYLVIAN
SOBRE “BREATHE” DE DEPECHE MODE
SOBRE “THE MAN WHO STOLE A LEOPARD” DE DURAN DURAN
SOBRE “OPUS DEI” DE LAIBACH
SOBRE “PAPER THIN HOTEL” DE LEONARD COHEN
SOBRE “ZAMKNELY SIE OCZY ZIEMI” DE STARA RZEKA
SOBRE “URNAN BUSHMEN” DE THE ART ENSEMBLE OF CHICAGO
SOBRE “CANAGE VISORS” DE THE CURE
SOBRE “20 JAZZ FUNK GREATS” DE THROBBING GRISTLE
SOBRE “BLAZING SADDLES” DE YELLO

THROBBING GRISTLE
20 Jazz Funk Great
1979 Industrial Records

Toda a materialidade deste disco parece desgarrada do seu conteúdo, como se, de algum modo, o significante não aderisse ao significado. O título (“20 Jazz Funk Greats”) não se molda à sonoridade experimental, que por sua vez não quadra com bucolismo da capa, que por sua vez elude o facto de Beachy Head (em fundo) ser um dos locais diletos dos suicidas, que por sua vez não se harmoniza com a designação de alguns temas (“Exotica”, por exemplo)… Dir-se-ia, em suma, que “ceci n’est pas une pipe”.

STILL WALKING

DAVID SYLVIAN
Marafon
2009 Samadhisound

“Manafon”, de David Sylvian, é um álbum feito de inflexões lírico-musicais, por vezes antepostas a um fundo árido (senão mesmo sombrio). A utilização de elementos improvisados, a par da tensão que lateja continuamente no seu fundo sonoro, pode converter o exercício de audição em dolorosa luta ombro a ombro. Magnífico.

EMILY DICKINSON

YELLO
Blazzing Saddles
1989 Mercury

Uma parte significativa dos temas compostos pelos Yello parece constituir a expressão da mais pura frivolidade e intranscendência. A música do duo suíço é, porém, mais do que isso, resultando amiúde de uma atitude escarninha e corrosiva, cujo escopo parece definido. Sem esse esgar sarcástico e a derrisão que lhe é implícita, dificilmente conseguiremos interpretar o mundo de plástico que têm edificado até aos nossos dias. Neste caso, a referência paródica aos Modern Talking é… óbvia. (Nota: “Blazing Saddles” é também o título de um filme, realizado em 1974, por Mel Brooks.)

BLAZING SADDLES

CLICK CLICK
Rorschach Testing
1988 Play It Again Sam Records

Em meados da década de 80, muito particularmente por via da EBM, várias bandas do eixo Bélgica-Holanda passaram a emular a eletrónica alternativa oriunda da Grã-Bretanha, estabelecendo uma polarização que punha fim à hegemonia britânica. Em consequência disso, a denominada “electronic body music” passou a ser uma entidade tendencialmente bicéfala. Entre os epígonos do movimento, destacaram-se os Click Click, cuja música devia tanto ao negrume industrial como às recônditas fantasmasgorias do subconsciente. A atestá-lo, o título do álbum de 1988: “Rorschach Testing”. (A propósito: a expressão “electronic body music” foi cunhada por Ralf Hütter.)

HEADFUCK

LAIBACH
Opus Dei
1987 Mute

A obra dos Laibach pode ser escrutinada através da sua iconografia. O exercício interpretativo mais simples consistirá em conotar a banda com a estetização do horror ou com a apologia do totalitarismo e do belicismo, entendidos como categorias inerentes à condição humana e, em particular, ao Übermensch. Essa via rapidamente se revelará improcedente, posto que o grupo não abre mão da ambiguidade e do “double entendre” que intencionalmente vem projetando nos seus discos e na sua imagem marcial. A despeito da sindicância ético-política que possamos intentar perante tais signos, importa referir que a literatura foi, desde cedo, um tópico central na construção identitária do grupo. Exemplo disso é o texto que escutamos em “F.I.A.T.”, tema extraído daquele que é ainda o trabalho cimeiro do coletivo — “Opus Dei”. As palavras pertencem a Ezra Pound, que, no decurso da II Guerra Mundial, redigiu diversos textos, difundidos pela rádio italiana, em que criticava os E.U.A. e o seu presidente, Franklin Roosevelt. Em razão desse apoio a Mussolini e ao fascismo, Pound viria a ser preso em 1945, acusado de traição.

You are in black darkness and confusion.
You have been hugger-muggered and caromshotted into a war, and you know nothing about it.
You know nothing about the forces that caused it, or you know next to nothing.
You are not to win this war.
You cannot win this war.

Nota: “caromshotted” é um termo de origem obscura; “carom” deriva provavelmente do castelhano “carambola”, que também existe em português, sendo usado de modo figurado para referir um truque ou uma armadilha.

F.I.A.T.

LEONARD COHEN
Paper Thin Hotel (do álbum “Death Of A Ladies’ Man”)
1967 Columbia

Confesso que nunca gostei muito de cantautores, em particular dos que trazem a verdade entravada na curva da garganta. Tampouco gosto do estilo Leonard Cohen, sobretudo quando canta em ritmo valsa, meio defunto e plangente, envolto num suposto êxtase poético. O Leonard que me interessa não é tanto esse; é o estapafúrdio, que permitiu a Phil Spector (por vezes de arma em punho) saturar os seus temas com efeitos desnecessários. E este é um desses temas, extraído de uma obra de arte totalmente desvairada (e enjeitada por muitos fãs). Excessivo, dir-se-ia.

PAPER THIN HOTEL

DEPECHE MODE
Breathe (do álbum “Exciter”)
2001 Mute

Além do sentido festivo ou de uma certa frieza (por vezes próxima da cold wave), os Depeche Mode exploraram sonoridades que, pela sua subtileza, tendem a passar despercebidas. É o caso de “Breathe”. A letra mostra-nos como a suspicácia pode esbarrar numa intrincada cadeia de intrigas ou numa culpa sistematicamente declinada. Nota: Marc Almond poderia interpretar esta canção sem qualquer dificuldade. Parece talhada à medida da sua voz.

BREATHE

STARA REKA
Zamknely Sie Oczy Ziemi
2015 Instant Classic

“Zamknely Sie Oczy Ziemi”, de Stara Rzeka, é um álbum misterioso e de recorte atmosférico. A sua propensão magnetizante deve-se a uma mescla que inclui influências da folk, do krautrock, do black metal ou da música eletrónica. É essa condição espúria que dificulta severamente a sua topografia, atirando-o para o território do insólito e do indestrinçável; mas é também ela que lhe confere todo o maravilhamento.

MALE SWIERKI

THE ART ENSEMBLE OF CHICAGO
Urban Bushmen
1982 ECM Records

Gravado ao vivo na cidade de Munique, “Urban Bushmen”, do The Art Ensemble Of Chicago, é um álbum poliédrico, patenteando a impressionante capacidade de improvisação do coletivo norte-americano. Nele, as fronteiras entre o jazz e o free jazz surgem esboroadas, atestando desse modo que a vibração funky pode ser contígua à densidade e à inquietação.

NEW YORK IS FULL OF LONELY PEOPLE

THE CURE
Carnage Visors (tema inicialmente incluído apenas na edição em cassete do álbum “Faith”)
1981 Fiction Records

O pós-rock é necessariamente o lugar do insólito e do excecional; caso contrário, será apenas uma forma de rock travestido. Dos fundamentos do género, fazem parte toda a espécie de transgressões que a música pop tem produzido desde o seu começo. Embora de forma injustificada, este longo e magnífico tema costuma surgir arredado desse vasto repositório de influências.

CARNAGE VISORS

DURAN DURAN
The Man Who Stole A Leopard (do álbum “All You Need Is Now”)
2011 Tape Modern

“The Man Who Stole A Leopard”, dos Duran Duran, é inspirado em “The Collector”, recomendável thriller de 1965, realizado por William Wyler, sobre um caçador de borboletas que alarga o âmbito da sua coleção, passando a incluir nela seres humanos. As vozes de fundo, sob a forma de “response”, pertencem a Kelis. Os arranjos de cordas são da responsabilidade de Owen Pallett, conhecido pelo seu projeto Final Fantasy que em 2006 se apresentou ao vivo em Leiria, num dos epiosódios do FADEINFESTIVAL ainda na condição de músico dos Arcade Fire. A notícia que marca o desfecho deste tema é, obviamente, falsa.

THE MAN WHO STOLE A LEOPARD

 

Anúncios