ESCAPARATE

Carlos Matos - Grafonola 02
Por CARLOS MATOS

ESCAPARATE é um lugar onde se arquivam palavras, às vezes poucas, às vezes nem muitas nem poucas, às vezes bastantes, dedicadas a algumas das edições que constam na coleção do autor da Unidade 304.

BGM – BACK GROUND MUSIC
BOBBY GILLESPIE AND JEHHNY BETH – UTOPIAN ASHES
CLINT MANSELL  – SHE WILL (ORIGINAL SOUNDTRACK)
DESIRE MAREA  – ON THE ROMANCE OF BEING
DON CHERRY  – BROWN RICE
DØDHEIMSGARD  – BLACK MEDIUM CURRENT
EINSTURZENDE NEUBAUTEN  – GRUNDSTÜCK
GENESIS P. ORRIDGE + THE HAFLER TRIO  – DREAM LESS SWEET
GRAVE PLEASURES  – PLAGUEBOYS
JAMIE BRANCH  – FLY OR DIE FLY OR DIE FLY OR DIE ((WORLD WAR))
JAYE JAYLE  – DON’T LET YOUR LOVE LIFE GET YOU DOWN
JOHN PAUL  – NO FILTER
KOVACS  – CHILD OF SIN
LEGENDARY PINK DOTS  – THE MUSEUM OF HUMAN HAPPINESS
LILI REFRAIN  – MANA
LYDIA LUNCH, MARC HURTADO  – MY LOVER THE KILLER
MADE TO MEASURE  – VOL.47 [FICTION]
MADE TO MEASURE  – VOL.48 [AKSAK MABOUL]
MAI MAI MAI  – RIMORSO
MATIAS AGUAYO AND THE DESDEMONAS  – SOFARNOPLIS
MICHAEL MANTLER  – ALIEN [FEAT. DON PRESTON]
MONIKA ROSCHER BIGBAND  – WITCHY ACTIVITIES AND THE MAPLE DEATH
NECRØ  – DEATH BEATS
NEO ZELANDA  – NEO ZELÁNEA
NORMAL BRAIN  – LADY MAID
POIL UEDA  – POIL UEDA
SANGUE SUOR  – O SALTO
ŠIROM  – SVET, KI SPECE KONJU CVET
SLOWDIVE  – EVERYTHING IS ALIVE
SYSTEM LILIPUTT  – HARPA
THE COOL GREENHOUSE  – SOD’S TOASTIE
XORDOX  – NEOSPECTION
YVES TUMOR  – PRAISE A LORD WHO CHEWS BUT WHICH DOES NOT CONSUME; (OR SIMPLY, HOT BETWEEN WORLDS)
ZOVIET FRANCE  – THE DECRIMINALISATION OF COUNTRY MUSIC

BGM
Back Ground Music
1980 Vanity Records

EM 241 PALAVRAS:

Os BGM (sigla de BACK GROUND MUSIC) foram um quarteto formado por Harunobu Kawashima, Kenichi Ebisawa, Syuichi Hashimoto e Takayuki Shiraishi. Apenas dois desses músicos acabaram por fazer carreira na música após a “dissolução” desta banda: Kawashima, na banda japonesa de rock alternativo e new wave Der Zibet (e também na banda de rock franco-nipónica, Pilar Stupa) e Shiraishi, que optou por continuar a editar em nome próprio, evidenciando-se na cena da música electrónica, quer como compositor, quer como produtor e dj. “Back Ground Music” é um disco visionário e o único que a banda lançou. A sua sonoridade nada tem de anacrónico e poderia muito bem ter sido gravado e editado este ano, pois a sua pulsante música, de balanço funk, cor post-punk, tiques industriais e um ar dadaísta, confere-lhe uma contemporaneidade assinalável. Este é daqueles discos fáceis de ouvir (sem serem propriamente simplistas), com uma produção espantosamente nítida e permanentemente atual, o que, ao longo dos anos, fez com que se tornasse numa peça ambicionada a ter na coleção dos mais “ferrenhos” garimpeiros sonoros. Os exemplares da edição original de 1980 raramente se encontram no mercado abaixo dos 200 euros. O LP viria a ser reeditado em 2019 pela Studio Mule que também viu a edição esgotar-se rapidamente. Contudo, e aqui fica a dica para eventuais interessados, exemplares em muito bom estado dessa tal reedição ainda se encontram no mercado de segunda mão a preços abaixo dos três dígitos!

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BOBBY GILLESPIE AND JEHHNY BETH
Utopian Ashes
2021 Silvertone

EM 70 PALAVRAS:

Bobby “Primal Scream” Gillespie e Jehnny “Savages” Beth (menina que já tive o privilégio de receber em Leiria num daqueles episódios-relâmpago sempre imperdíveis do FADEINFESTIVAL) assinam em “Utopian Ashes” um conjunto de duetos que versam histórias de faca e alguidar, dor de corno, divórcio e quejandos. Depressivo não muito, agradável não pouco, prazeroso quanto baste. Fixe para se ouvir numa esplanada a ver pessoas a passar em fato de banho.

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MANSELL, Clint - She Will (Soundtrack)

CLINT MANSELL
She Will (Original Soundtrack)
2022 Mercury KX

EM 129 PALAVRAS:

Clint Mansell, nome para sempre ligado aos britânicos Pop Will Eat Itself é, há muito, um compositor intrinsecamente relacionado com o mundo do cinema, já com quase uma vintena de bandas sonoras escritas. Esta que aqui assina é para o filme “She Will”, um drama de horror psicológico do mestre Dario Argento. Nos 45 minutos de duração do álbum somos convidados a embarcar numa viagem povoada por um ambiente tenso, com crescendos orquestrais e abruptos mergulhos em mares calmos de águas geladas. As vozes frias femininas que aqui e ali pairam, meio angelicais meio fantasmáticas, bafejam-nos com uma brisa que nos arrepia. Não vi o filme para o qual esta música foi composta, mas apropriei-me da sua banda sonora e criei o meu na deriva que esta me facultou.

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DESIRE MAREA
On The Romance Of Being
2023 Mute

EM 258 PALAVRAS:

Ao ouvir “On The Romance Of Being”, o segundo álbum do projeto sul-africano Desire Marea, sou “obrigado” a escrever que esta é, sem dúvida, uma obra que supera largamente “Desire”, o já de si recomendado trabalho de estreia, em 2020. A música de Desire Marea continua espiritual, continua soul e experimental, porém está agora muito mais orgânica. De lado ficou grande parte da eletrónica, que foi substituída por mais instrumentos, como guitarras, sopros, bateria e baixo. Aliás, é um combo de 13 músicos que orquestra este álbum. Como resultado, emerge um universo mais “rockeiro” à lá Yves Tumor, mas também muito mais jazzístico e ambiental, como se David Sylvian levasse os seus Japan para territórios mais etéreos, místicos e libertos. Porém (pasme-se!), aqui e ali há vozes guturais possuídas, na linha de uns Zeal And Ardor mais contidos, e até se embarca em viagens com laivos de prog-rock e ensaios operáticos. O álbum é verdadeiramente surpreendente e pode, outra vez, agradar a pessoas familiarizadas com os universos musicais de nomes como Serpentwithfeet, Lotic e Nakhane, e claro, também com os territórios dos já referidos Yves Tumor (ainda que ligeiramente) e Zeal And Ardor (ainda que mais ligeiramente). Mas pode, igualmente, agradar a pessoas que, não conhecendo nenhuma destas referências que menciono, gostam de ser surpreendidas com sonoridades “exóticas”, sem amarras estéticas, e afoitas quanto baste. Uma nota final para o facto da maioria dos temas deste maravilhoso disco serem cantados, parte ou integralmente, em Zulu, um idioma tribal que lhe confere uma aura ainda mais mágica e misteriosa.

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DON CHERRY
Brown Rice
1975 EMI

EM 170 PALAVRAS:

Pode um disco de 1975 soar fresco e, de certo modo, a novo, em 2023? Sim, pode, e este é um deles. Don Cherry (pai de Eagle-Eye Cherry e padrasto de Neneh Cherry) foi um genial trompetista e músico norte-americano e este álbum, “Brown Rice”, prova-o a toda a escala. Aqui embarcamos numa viagem musical onde se ensaiam fusões muito bem sucedidas de jazz, world music, funk, música tribal e psicadélica, juntando instrumentos convencionais com outros a que estamos menos habituados, como berimbau, tabla, cuíca e caxixi. Há ainda lugar ao improviso e uma homenagem a Ornette Coleman (músico com quem Cherry colaborou com assiduidade) onde o trompetista toca flauta e percussão. Este álbum é considerado uma das obras mais importantes de Cherry e um dos seminais exemplos de mistura de jazz com outros estilos musicais e que, pelo seu caracter pioneiro, acabou por influenciar um conjunto de músicos seus contemporâneos e outros das gerações que o sucederam. Em suma, um disco brilhante e obrigatório em coleções sem amarras estéticas.

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DØDHEIMSGARD
Black Medium Current
2023 Peaceville

EM 177 PALAVRAS:

Pode uma banda de “black metal” começar um disco com um tema que nos primeiros minutos parece evocar o universo poético e estético de Matt Elliott? Pode, se essa banda for uma das mais arrojadas, esclarecidas e inventivas a emergir na cena “pesada” na última década. Pode um disco de “black metal” ter prog rock, eletrónica, indie, post-rock, synthwave, post-punk, darkwave e ainda trejeitos pinkfloydianos? Pode, se for de uma banda que não está demasiado espartilhada ou amarrada a regras e arquétipos herméticos. Pode uma banda de “black metal” elevar o estilo para um patamar que o transfigura sem o subverter, adornando-o com teatralidade e uma carga dramática que lhe confere uma espiritualidade quase sacra? Pode, se essa banda não estiver presa a preconceitos e clichés, se essa banda revelar um sentido de experimentação livre, se essa banda for capaz de tudo isto sem nunca perder sentido estético, postura e serenidade. Mas pode uma banda de “black metal” ser serena e ao mesmo tempo deixar-nos assim neste sobressalto? Pode. E essa banda é esta.

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EINSTURZENDE NEUBAUTEN
Grundstück
2018 Potomak

EM 250 PALAVRAS:

Este é, provavelmente, um dos discos menos conhecidos dos EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN. Para isso talvez tenha contribuído o facto de que quando foi originalmente editado, em 2005, tenha sido apenas disponibilizado numa tiragem muito limitada e exclusiva aos assinantes registados no site oficial do grupo de culto de Blixa Bargeld e companhia. Em 2008 o disco voltou a estar disponível para venda na banca de merchandise da banda durante a digressão de promoção ao álbum “Alles Wieder Offen”. Em 2018 os Neubauten resolveram, finalmente, fazer uma reedição para o “mercado comum” de modo a que mais pessoas tivessem acesso a esta obra que, não sendo prima, é, ainda assim, merecedora de total atenção. Como bónus de chamariz a banda resolveu incluir nesta edição um DVD contendo material da performance “Grundstück” que deu origem a este álbum e que foi gravada em novembro de 2004 no “Palast der Republik” em Berlim. Musicalmente, este disco faz o elo de ligação entre os álbuns “Perpetuum Mobile” de 2004 e o já referido “Alles Wieder Offen” de 2007, mas com uma abordagem mais experimental (falar em abordagem experimental no universo dos Neubauten é uma clara redundância, evidentemente) tornando o seu anti-pop pop, que tem vindo a ser a sua sonoridade de marca nas duas últimas décadas, num anti-pop pop um tudo-nada mais “alternativo”, nuance essa que os melómanos mais calejados e familiarizados com os Neubauten nem notarão, certamente. Ainda assim, há aqui substância, tanta que nem ousem pensar que este é um disco de sobras.

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GENESIS P. ORRIDGE + THE HAFLER TRIO
Dream Less Suite
2023 Cortizona

EM 256 PALAVRAS:

A primeira chamada de atenção vai para a inscrição que está no autocolante desta belíssima capa e cuja tradução livre é mais ou menos esta: “Contém bandas sonoras de filmes inacabados, gravações ao vivo e versões originais de músicas que você conhece e adora. Aconselhado a crianças de todas as idades e para a restante família! (quando disponível)”. Portanto, mais irónico não poderia ser. Genesis P-Orridge e The Hafler Trio são dois nomes incontornáveis da música exploratória/provocatória que dispensam grandes apresentações. Ainda assim, para os mais distraídos, o press-release que acompanha o disco faz questão de relembrar: Genesis P-Orridge foi fundador da COUM Transmissions (1969), dos Throbbing Gristle (1975), dos Thee Temple of Psychick Youth e dos Psychic TV (ambos em 1981) e é, talvez, a maior figura (e também uma das mais controversas) da história da música industrial/experimental. Já Andrew McKenzie formou The Hafler Trio (com Chris Watson dos Cabaret Voltaire) em 1982 e ao longo dos anos colaborou com nomes como William S. Burroughs, Autechre, Jóhann Jóhannsson, Nurse With Wound ou Jónsi dos Sigur Rós. O impacto e a influência destes dois pioneiros do underground industrial, pensadores visionários e anti-heróis dos excluídos, dificilmente pode ser subestimado. Neste “Dream Less Suite” (que belo trocadilho!), o primeiro álbum novo de Hafler Trio desde 2016, Andrew McKenzie revive e completa as gravações que fez ao longo dos anos com o já saudoso Genesis P-Orridge. O que posso acrescentar é que esta obra é puro deleite sonoro para quem está familiarizado com os universos artísticos destes dois transgressores.

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GRAVE PLEASURE
Plagueboys
2023 Century Media

EM 145 PALAVRAS:

“Plagueboys” é o terceiro e brilhante LP dos finlandeses Grave Pleasures, banda que também editou os não menos recomendáveis álbuns “Dreamcrash” (Sony Music, 2015) e “Motherblood” (Century Media, 2017), e que até 2015 se chamou Beastmilk, tendo editado sob esse nome o álbum “Climax” (Svart Records, 2013). Este quinteto, que está sediado em Tempere e onde pontificam músicos que também pertencem a bandas como Hexvessel, Shining, Waste Of Space Orchestra, Dødheimsgard ou Oranssi Pazuzu (portanto, tudo malta com rodagem em grupos com sonoridades fortemente personalizadas) tem no timbre de voz do seu vocalista (o irlandês Mathew McNerney) a impressão identitária sonora da banda. Os Grave Pleasures definem a sua música como “sub-artic hysteria and virulence apocalyptic post-punk”, mas esta definição pode induzir uma massa ruidosa que a banda definitivamente não tem. Aqui há canções. Negras e algo obscuras, é certo, mas canções. Belas, belíssimas canções.

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JAMIE BRANCH
FLY OR DIE FLY OR DIE FLY OR DIE ((WORLD WAR))
2023 International Anthem

EM 92 PALAVRAS:

Álbum póstumo da incrível trompetista e compositora Jamie Branch que faleceu o ano passado com apenas 39 anos. A sua obra final é um tratado de liberdade, uma ode que se reescreve a cada audição, uma desbunda libertina, um ritual de sons, um banho de cores, uma incursão espectral, é África, é América Central (às vezes do sul), é Nova-Iorque vanguardista, e Chicago, e Boston, e Houston, é jazz, é música clássica contemporânea, é punk, é hip-hop, é rock, é livre. Repito, é livre. E obrigatória numa coleção sem espartilhos. Repito, obrigatória.

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JAYE JAYLE
Don’t Let Your Love Life Get You Down
2023 Pelagic Records

EM 126 PALAVRAS:

King Dude, Mark Lanegan, Xixa, The Veils e até John Grant ou Michael Gira ou Brendan Perry, são nomes que nos assaltam quando ouvimos pela primeira vez o novo disco de Jaye Jayle, alter ego do músico e compositor norte-americano, Evan Patterson, o ex-marido de Emma Ruth Rundle. Mas passado esse primeiro impacto (que é um excelente impacto, claro) e percebemos que o álbum esteve em repeat praticamente todo o fim-de-semana, tomamos consciência de que nada é por acaso e rendemo-nos (como se não o tivéssemos feito logo na primeira audição) a esta maravilha, feita de canções lentas sem serem fastidiosas, sofisticadas sem serem excessivamente adornadas, emotivas sem serem espalhafatosas, espirituais, redentoras, viciantes. Tão viciantes que voltamos a carregar no play, outra e outra vez…

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JOHN PAUL
No Filter
2018 Harbinger Sound

EM 184 PALAVRAS:

Pilas, pipis, cus, mamas, carros, dinheiro. Salvo honrosas exceções (e há muitas, nacionais e internacionais) são estes os temas mais versados no hip-hop em geral e nalgumas das suas inúmeras vertentes, como o drill ou o trap. John Paul é uma dessas exceções. O britânico tem um flow e uma temática semelhante aos Sleaford Mods e aqui não há coincidências: a editora é a mesma e Paul já deu voz a alguns temas dos Mods. Chamar hip-hop à música que encontramos neste LP é um exercício preguiçoso mas também não é grave. Ainda assim, talvez “slam-poetry” seja o termo mais apropriado para descrever o desfile de cinismo e de críticas sociais e políticas que podemos encontrar em “No Filter” (um título bastante ajustado), em que Paul destila a sua “raiva”, num jeito bem punk, sob estruturas eletrónicas feitas de samples minimalistas e deliberadamente repetitivos. Embora com um oceano lírico a separá-los (e musical, também), não deixou de me vir à memória os trabalhos seminais de Anne Clark, sobretudo pelo acentuado sotaque britânico e pela forma spoken-wordiana da métrica das letras que podemos ouvir aqui.

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KOVACS
Child Of Sin
2023 Music On Vinyl

EM 200 PALAVRAS:

“Child Of Sin”, o terceiro álbum da neerlandesa KOVACS, volta a colocá-la no mesmo patamar de excelência que a revelou no seu disco de estreia em 2015, “Shades Of Black”. Ambos têm um universo sonoro de canções urdidas entre o ambiente cabaret parisiense e a vertigem, elegância e sofisticação de um bom 007. Pelo meio, em 2018, Sharon Kovacs editou ainda “Cheap Smell”, um disco de características próximas do R’N’B, bem produzido e cantado, mas longe, muito longe do brilhantismo atingido neste e no primeiro álbum. A voz de Kovacs é a sua grande “arma”. Grave, aveludada, com vibrato, e às vezes com uma ténue e sexy rouquidão. Os arranjos, neo-clássicos, são grandiosos mas nunca desnecessariamente épicos. Um dos momentos peculiares do álbum é o tema título, uma “balada” “gótica” cantada a duas vozes, com a participação de Till Lindemann, em que ouvimos o líder dos Rammstein num inglês deliciosamente macarrónico o que, para a ocasião, assenta que nem uma luva. E se o primeiro álbum apresentava “My Love” como o seu tema mais acaramelado e aquele que prendia qualquer incauto à musica de Kovacs, neste existe “Bang-Bang”, um tiro certeiro (e cheio de cola) direitinho ao nosso córtex cerebral.

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LEGENDARY PINK DOTS
The Museum Of Human Happiness
2022 Metropolis Records

EM 161 PALAVRAS:

Não são muitas as bandas que podemos referir que ao fim de mais de 40 anos de carreira continuam a soar frescas e inventivas. O caso dos Legendary Pink Dots é uma dessas saudáveis excepções. O grupo liderado pela figura carismática e singular que é Edward Ka-Spel editou em 2022 um dos discos mais fascinantes do ano. “The Museum Of Human Happiness”, 47º álbum de estúdio dos Dots, contou com Ka-Spel nas vozes e teclas, Phil Knight na guitarra, Erik Drost no baixo e Raymond Steeg na produção. O disco tem uma surpreendente aproximação à música “pop” (ouça-se, por exemplo “This Is The Museum” ou “Cruel Britannia”) mas é, na sua esmagadora maioria, bastante “legendarypinkdotiniano”, ou seja, com estruturas musicais progressivas, eletrónica abraçada por instrumentos convencionais, e onde a voz única de Ka-Spel (semi-cantada, semi-narrativa) nos (en)canta histórias de um mundo só dele. E é aí, acreditem, que reside uma das maiores caraterísticas desta banda singular. Para ouvir, reouvir e viajar.

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LILI REFRAIN
Mana
2022 Subsound Records

EM 119 PALAVRAS:

Lili Refrain é uma cantora, compositora e multi-instrumentista italiana reconhecida pela sua excepcional criatividade. “Mana” é o notável álbum que lançou em 2022 (quase uma década depois do anterior, “Kawax”, que é de 2013), uma obra abençoada pelo talento, feita através de um arsenal de instrumentos que inclui guitarra elétrica, sintetizador e percussão, que são usados através da técnica de loopings e camadas. E é nessas estruturas sonoras que Lili Refrain liberta a sua voz dotada, recriando-se em majestáticas evocações espirituais, em rituais de redenção e em purgas libertadoras, remetendo-nos, por vezes, para nomes como Lisa Gerrard, Anna Von Hausswolf e, nos momentos mais intensos e escuros, Diamanda Galás. Um disco que é, sem dúvida, um portento de emoções.

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LYDIA LUNCH, MARC HURTADO
My Lover The Killer
2016 Munster Records

EM 121 PALAVRAS:

Ambiente de cabaret soturno, às vezes lúgubre. Aqui e ali cheira a morte. Também há incursões industriais, inóspitas viagens a lugares com edifícios a transpirarem humidade virosa. O cheiro é o mesmo, mas agora tem um odor a sexo. Às vezes as paredes jorram sangue como se fossem pele golpeada. Há passagens estreitas que cheiram a vomitado recente. Os intervenientes são gente com pergaminhos no lado mais sujo e imundo das artes: Marc Hurtado é o homem do leme dos lendários Étant Donnés. Lydia Lunch é Lydia Lunch, a rainha dos snuff movies universitários do final dos anos 70, a senhora dos Teenage Jesus And The Jerks, mestre da spoken-word, poetisa, actriz, escritora, declamadora, provocadora de profissão. Estamos, pois, bem entregues.

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MADE TO MEASURE
VOL.47
2022 Crammed Discs

EM 57 PALAVRAS:

O relançamento da mítica série Made To Measure, em que a Crammed Discs desafia artistas firmados a compor para performance, teatro, bailado ou banda sonora, é uma compilação que reúne, entre outros, nomes como Kaitlyn Aurelia Smith, Christina Vantzou, Nils Petter Molvær, Lucrecia Dalt, Matias Aguayo, Felicia Atkinson, Benjamin Lew ou Steven Brown. Mais palavras para quê?

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MADE TO MEASURE
VOL.48 (AKSAK MABOUL – Une Aventure De VV (Songspiel)
2023 Crammed Discs

EM 49 PALAVRAS:

“Criado à maneira de uma ficção radiofónica, o quinto álbum da inclassificável banda bruxelense Aksak Maboul entrega um conto musical onírico envolto em poesia surrealista, que estimula maravilhosamente o ouvido tanto quanto a imaginação”. Quem o “diz” é a insuspeita Les Inrockutibles e eu nada mais tenho a acrescentar.

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MAI MAI MAI
Rimorso
2022 Maple Death Records

EM 200 PALAVRAS:

Só chegou ao nosso escaparate no início de 2023, mas garantimos que é, sem dúvida, um dos álbuns mais incríveis que ouvimos com selo 2022. Para não corrermos o risco de o desvirtuar, decidimos nem nos atrevermos a traduzir o texto que vinha estampado no PVC original que envolvia a capa deste duplo LP: “Repossessed by the past, bitten once again and forced to relive drama, history, memories, tradition and roots. A past that needs exorcizing, bending and re-imagining in order to move forward and depend on. This is ‘Rimorso’, Mai Mai Mai’s colossal mediterranean gothic album. Known for his incredible blend of Southern Italian Folklore, industrial drone, proto-techno & punishing miasmic electronic music”. De resto, apenas queremos acrescentar que Mai Mai Mai é o projeto do percussionista e experimentalista italiano Antonio Cutrone que nesta obra prima absoluta se acercou dos contributos vocais de gente com créditos mais que firmados, como Maria Violenza, Vera Di Lecce, Nziria (ou seja, Tullia Benedicta), Faraualla (ou seja Gabriella Schiavone, Loredana Perrini, Maristella Schiavone, Paola Arnesano, Shannon Anderson, Teresa Vallarella) e a libanesa Youmna Saba. Em suma, um disco obrigatório, daqueles mágicos, que nos permitem ir a todo lado sem sairmos fisicamente de onde estamos.

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MATIAS AGUAYO AND THE DESDEMONAS
Sofarnopolis
2017 Crammed Discs

EM 115 PALAVRAS:

Estão a ver aquele Matias Aguayo ligado ao movimento electrónico de Berlim e às festas techno da América do Sul? Esqueçam-no. Aqui o produtor chileno radicado na Europa desde jovem, deixa de lado os ritmos sincopados de 4 por 4 e recruta os The Desdemonas (um alemão, um colombiano e um italiano) para assinar um disco que vale mesmo a pena ter. Lançado em 2017 “Sofarnopolis” continua tão actual como há seis anos. O seu universo sonoro situa-se algures entre uns Colder mais luminosos e uns Primal Scream ou uns Death In Vegas a fazerem canções pop em lugares semi lúgubres. Aliás, queria escrever “pop”, que isto tem mais de pós punk que de pop Mais palavras para quê?

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MICHAEL MANTLER
Alien [feat. Don Preston]
1985 ECM Music

EM 130 PALAVRAS:

Composto pelo trompetista Michael Mantler sob a supervisão de Carla Bley (sim, essa mesmo! – o austríaco e a norte-americana eram casados por essa altura), “Alien” é um diálogo entre o instrumento de sopro de Mantler e os sintetizadores de Don Preston, o veterano teclista dos The Mothers Of Invention, a banda que acompanhava Frank Zappa. 40 anos após a sua edição o álbum revela, com alguma naturalidade, as marcas do tempo, sobretudo devido à “eletrónica” datada que o reveste. Contudo, a sua audição não deixa de continuar a ser um ótimo exercício que nos ajuda a perceber como era parte do jazz mais contemporâneo de meados dos anos 80. E este até tinha incursões pelo prog rock. “Alien”, no geral, é frio e misterioso e, às vezes, inóspito e labiríntico.

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MONIKA ROSCHER BIGBAND
Witchy Activities And The Maple Death
2023 Zenna

EM 195 PALAVRAS:

Neste seu segundo e estonteante longa duração, a compositora, baixista e vocalista germânica, Monika Roscher, convoca vinte músicos para dar corpo à sua bigband. Porém, desengane-se quem possa pensar que aqui se ouve uma “bigband” convencional. O passado é importante mas repeti-lo constantemente pode tornar-se aborrecido. Isto para voz dizer quer aqui também se ouve jazz, claro, porém é um jazz com o foco no futuro, em formato canção, às vezes de toada abertamente “pop”, outras vezes disruptivo, como se querem as vanguardas. Monika Roscher é genial e prolífera. A sua escrita, lírica e composicional, é uma lufada de ar fresco; é um constante banquete sonoro onde emerge a sua visão despartilhada, alguma esquizofrenia saudável, uma aura fantasiosa e um lado obscuro que, aqui e ali, tinge de negro algumas das suas melodias. Isto é um disco de jazz. Isto é um disco de synthpop. Isto é um disco de música exploratória. Mas também é de darkwave, de rock progressivo, de música orquestral e de música eletrónica. Enfim, isto é um disco completo, cheio, robusto, que se ouve e reouve sempre com prazer redobrado. Uma das obras mais fascinantes de 2023. Não há como negar.

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NECRØ
Death Beats
2023 Regulator Records

EM 383 PALAVRAS:

NECRØ é o mais recente projecto de João Vairinhos, músico que tem obra editada em nome próprio, mas que também nos habituámos a associar a bandas como Wildnorthe ou Löbo. Para colaborar em NECRØ, Vairinhos recrutou Sara Inglês, a idiossincrática voz e teclista com quem trabalha nos já referidos Wildnorthe. Sara tem um timbre gélido e, ainda assim, sensual, o que lhe confere uma singularidade assinalável e um atributo que só a ela lhe reconhecemos. Este aparente paradoxo, de uma voz espectral que simultaneamente nos ensombra e nos aconchega, assenta que nem uma luva nas sorumbáticas estruturas rítmicas e melódicas que emergem no sórdido universo sonoro urdido por Vairinhos. “Death Beats”, o EP de estreia de NECRØ, tem seis temas. Abre com “Surviving Pessimist”, numa toada dançável, feita através de uma electrónica de pendor minimalista onde se vão incluindo elementos da synthwave e de dungeon synth. Segue-se “Narcissist”, um tema mais próximo do formato “canção”, com uma ambiência em crescendo, feita de breaks típicos da synthpop dos anos 80, num épico contido onde brilha, mais uma vez, a voz niilista de Sara. Depois de “X”, um pequeno tema instrumental que, pelos arrepios que nos provoca, poderia muito bem fazer parte da banda sonora de uma qualquer sequela de “Blair Witch”, segue-se “Two Sides”, uma inóspita canção com um balanço de tendência épica e com a voz de Sara a surgir com se viesse de um poço sem fundo, o que sublinha a aura NECRØfila do ar que por aqui se vai respirando. O pequeno “Without You”, que mais parece uma comunicação entre esta e uma dimensão do além, precede “Death Beats”, o tema título que encerra este EP. A faixa homónima é um portento que nos convida novamente à dança, numa teia de ritmos industriais, sequenciadores incisivos e uma melodia sinistra, que faz jus à letra que timbra com excelência o trabalho artístico aqui desenvolvido, onde também se inclui o excelente vídeo do tema, assinado pela própria Sara Inglês. O universo sonoro de NECRØ poderia ser descrito como uma espécie de casamento entre uns Boy Harsher mais tétricos e um Perturbator mais exploratório, mas a verdade é que os atributos composicionais e vocais aqui apresentados têm, na sua génese, uma personalidade que dispensa qualquer exercício metafórico comparativo, por muito criativo que possa parecer.

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NEO ZELANDA
Neo Zelánea
1986 Auxilio De Cientos

EM 139 PALAVRAS:

Maria José Gonzáles, também conhecida por Ani Zinc, foi, no início dos anos 80, uma figura de proa na cena experimental eletrónica de Granada. A cidade andaluza efervescia com uma série de projetos, alguns dos quais chegaram mesmo à edição, como foi o caso de Neo Zelanda, em cujo álbum, “Mix Zelánea” (trocadilho fonético que nos remete para a palavra “Miscelânea”), González reunia um conjunto de fragmentos sonoros que privilegiava a irreverência exploratória em detrimento da mestria executiva. Só assim se explica, por exemplo, que um tema tão “tosco” (e obsessivo!) como “La Fanática” se evidencie numa obra como esta, repleta de experiências quase dadaístas. Um tormento para os ouvidos menos treinados, mas uma delícia para melómanos calejados. Maria José Gonzáles também pertencia aos mais “conhecidos” Diseño Corbusier. Este LP foi reeditado em janeiro de 2023 pela Munster Records.

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NORMAL BRAIN
Lady Maid
1981 Vanity Records

EM 260 PALAVRAS:

Este LP editado em 1981 pela Vanity Records, sempre foi um disco muito cobiçado para quem, nos nossos dias, gosta de garimpar nos lugares mais recônditos da música experimental eletrónica do final dos anos 70, início de 80. O problema é que tendo sido um disco limitado a 300 exemplares, as cópias originais que chegaram até aos dias de hoje facilmente atingem os 500 euros, o que é fixe para quem tem uma, mas é lixado para quem ambiciona ter.”Lady Maid” foi o único álbum que Normal Brain (uma espécie de alter-ego do artista nipónico Yukio Fijimoto) lançou e é considerado um marco na história da música eletrónica japonesa e um dos primeiros exemplos de música techno (ainda que muito rudimentar e extraordinariamente minimalista) produzida no Japão. As vozes que se ouvem nos temas deste álbum foram produzidas através de uma espécie de brinquedo tecnológico muito popular à época no país do sol nascente, designado por Texas Instrument Speak & Spell, que reproduz a voz humana fazendo-a soar de forma tipicamente robótica. Como se pode ler no bandcamp da “We Release What The Fuck We Want Records”, a editora helvética que em 2018 reeditou esta obra, “It’s elegantly minimalist, honest and witty, very playful, cleverly pop, and downright fascinating. The a-side captures the fun side of avant-garde electronica, lo-fi wave, proto-glitch, and IDM, a joyful ride beautifully interrupted by the cinematic mood switch of the b-side – a 20 minute ambient piece flirting with sci-fi, melancholy, and hints of metallic darkness. Unclassifiable and marvelous!”, e nós nem mais uma vírgula vamos acrescentar.

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POIL UEDA
Poil Ueda
2023 Dur Et Doux

EM 65 PALAVRAS:

Misterioso, encantatório, teatral. Tribalista, cerimonial, intrigante. Arrojado, fusional, progressivo. Técnico, estético, cinemático. Estranho e simultaneamente apelativo. Hipnótico e simultaneamente empolgante. Calmo e simultaneamente agitado. É assim este disco, um dos mais fascinantes que ouvi em 2023, e o resultado da colaboração entre a banda francesa Poil e a cantora japonesa e tocadora de Biwa (um instrumento de cordas nipónico), Junko Ueda. Bonito e paradoxalmente assustador.

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SANGUE SUOR
O Salto
2023 Omnichord Records

EM 431 PALAVRAS:

Sangue Suor é um trio de percussionistas portugueses de créditos firmados: Ricardo Martins (Adorno, Cangarra, Black Leg, Bruxas/Cobras, Jibóia, Papaya, Lobster ou Pop Dell’Arte, só para citar algumas das “suas” bandas), Susie Filipe (Siricaia, Moonshiners) e Rui Rodrigues (Daskarieh, Pás de Problèm, Voodoo Marmalade). Neste 12 polegadas de estreia os Sangue Suor acercaram-se de um conjunto de colaboradores que trouxeram à música da banda uma miríade de cores (algumas deliciosamente monocromáticas) que lhes confere diversidade. É nessa biosfera sonora que emergem as presenças de Surma (com a sua idiossincrática voz e eletrónica), Cabrita (com o seu inconfundível sax, algumas vezes dobrado em mais que um), LARIE (alter ego de Labaq, a bela artista brasileira que adotou Leiria para viver e a Omnichord para se aconchegar) e Selma Uamusse (cujo contributo vocal e silábico torna o tema onde participa num dos momentos mais mágicos desta pequena – demasiado pequena, diria – viagem). Os seis temas que apresenta “O Salto” não ultrapassam, na sua totalidade, os 18 minutos, mas é minha convicção (talvez porque esteja habituado a ouvir músicas muito, muito longas) que as suas estruturas estão preparadas para terem uma duração bastante mais comprida. Poderá ser esse “acrescento” que a banda eventualmente apresente quando levar este disco a palco. Coloco o lado A a rodar. A música dos Sangue Suor parece que nos remete para uma floresta onde as geografias dos seus trópicos têm a sazonalidade das estações. Às vezes encontramos os seus lugares mais encantados (“Para a Frente”), mas logo a seguir somos “exorcizados” numa dança frenética rodeados pelos espíritos animais que pululam entre os ramos das densas árvores (“De Costas”). À medida que vamos penetrando essa floresta mutável somos inebriados pelos seus cheiros hipnóticos que nos tornam ébrios e nos fazem parecer que afinal entrámos foi num cabaret fumarento de uma qualquer cidade portuária (“Revirando”). Mudamos para o lado B do disco e seguimos a nossa viagem pela vasta vegetação. Chegámos a uma pequena aldeia. Há pessoas e vozes de uma tribo e há uma sacerdotisa que evangeliza a mensagem da inclusão (“Pontapé à Lua”). Mais à frente a noite cai e com ela emerge um cântico de palavras indecifráveis e de outras que reconhecemos e que parecem fazer parte de um jogo de ladainhas (“Em Equilibrio”). Por fim, chegámos ao outro lado da floresta. Tocam os tambores e ressoam os sopros como se fôssemos dignos de um prémio por termos chegado tão longe (“Em Parafuso”). Volto ao lado A e enceto nova incursão metafórica. Não sei em que trópico, não sei em que hemisfério. Mas sei que vou voltar a gostar.

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ŠIROM
Svet, Ki Speče Konju Cvet
2023 Tak:til

EM 92 PALAVRAS:

Este é o terceiro e mui recomendado álbum dos eslovenos Širom, um trio com uma sonoridade extravagante, fora dos eixos, que abraça o experimentalismo usando as aprendizagens da música folk e do livre espírito do jazz. Porém, não estejam à espera de ouvir aqui qualquer tipo de standard, quer do jazz, quer da folk. Confusos? A etiqueta colada na capa do álbum ajuda a perceber (ou não!): “Slovenian imaginary folk trio’s kaleidoscopic 3rd album. A deep resonant soundworld that filters global psych, outernational field recordings, mutant roots music and Rileyesque minimalism”

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SLOWDIVE
Everything Is Alive
2023 Dead Oceans

EM 23 PALAVRAS:

Planante sem ser soporífero, bonito sem ser meloso, intenso sem ser agreste. Suave, envolvente, tímido, que se vai deixando descobrir a cada audição.

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SYSTEM LILIPUTT
Harpa
2011 Dark Entries

EM 118 PALAVRAS:

Originalmente editada em cassete em 1984 pela Geva Tapes & Studio, “Harpa” foi a única obra conhecida deixada por System Lilliput, projecto do norueguês Geir Vasseng, indivíduo de quem pouco se sabe, que nos deixou em julho de 2016. Aqui ouvem-se 11 temas, gravados caseiramente, com uma produção, ainda assim, assinalável para as circunstâncias. Não devemos esquecer que os meios de gravação caseiros nos anos 80 e 90 estavam a milhas de distância do que se consegue fazer hoje sem sairmos do nosso domicilio. O universo musical aqui contido deambula entre a synthpop sorumbática e o post-punk de tendência eletrónica, e a sua audição é um exercício agradável de se fazer. Um álbum obscuro e tosco, porém, simpaticamente prazeroso.

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THE COOL GREENHOUSE
SOD’S TOASTIE
2022 Melodic

EM 39 PALAVRAS:

Letras inteligentes, irónicas, políticas, humoradas, envoltas em composições minimalistas, de reminiscência pós punk, entoadas por palavras mais faladas que cantadas, como se soltassem da boca dos The Fall depois destes se terem casado com a própria sombra. É um elogio.

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XORDOX
Neospection
2017 Editions Mego

EM 123 PALAVRAS:

Xordox é mais um dos projetos de James George Thirlwell, ou seja, de J.G. Thirlwell, ou seja de Clint Ruin, ou seja de Foetus, ou seja do homem por detrás de outros nomes como Wiseblood, Steroid Maximus ou Manorexia. Em “Neospection” o músico trilha um caminho cheio de sintetizadores que evocam uma espécie de viagem espacial aos lugares mais escuros da via-láctea, numa toada melódica própria do revivalismo synth 80’s, algures entre Jean-Michel Jarre, Klaus Schulze e Tangerine Dream. Este é um disco que se ouve bem mas está longe da genialidade e da irreverência de outros dos seus projetos, e que tornaram este músico num nome incontornável na história de alguma da música mais disruptiva que se fez atá à data.

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YVES TUMOR
Praise A Lord Who Chews But Which Does Not Consume; (Or Simply, Hot Between Worlds)
2023 Warp Records

EM 160 PALAVRAS:

O quinto álbum do “bad boy” mais glamouroso e inventivo de Turim, confirma o que há muito prevíamos: Yves Tumor está cada vez mais fácil de ouvir e isso não é mau. É apenas um sinal de que a sua música pode chegar a mais gente e isso, repito, não é mau. Sobretudo porque a sua música é boa. Aliás, muito boa. O experimentalismo e a viagem exploratória mais agreste que o trouxe até aqui, e que foram cruciais para o seu crescimento como compositor, ficaram arrumados numa divisão à prova de bala. Ainda assim sente-se por aqui o sangue irreverente que corre nas veias deste “endiabrado” criativo. Neste álbum de título longo ouve-se rock psicadélico enviesado, R’n’B contemporâneo disfarçado, post-punk transfigurado, rock arty ziguezagueado ou blues adulterado. Tudo feito com o contributo de músicos e convidados de excelsa qualidade (de nacionalidades como a Albânia, Kosovo, Líbano, Suécia…) e envolto num desenho de som que revela uma produção absolutamente imaculada.

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The Decriminalisation of Country Music

ZOVIET FRANCE
The Decriminalization Of Country Music [2000]
2021 Vinyl On Demand

EM 179 PALAVRAS:

Ben Ponton (membro fundador em 1980) e Mark Warren (que entrou para os Zoviet France em 1995) assinam aqui uma obra encomendado pela Tramway, uma “galeria” de arte contemporânea internacional localizada no centro de Glasgow, na Escócia, que depois acolheu a sua apresentação ao vivo. O nome escolhido para o disco, “The Decriminalization Of Country Music” (originalmente editado em CD em 2000 e reeditado em duplo vinil em 2021) é fantástico, sobretudo tendo em conta que a música da banda de Newcastle está nos antípodas da música country. Ainda assim, nesta obra, os Zoviet France fazem uso de guitarras (instrumento raríssimo na vasta discografia da banda), mas, claro, de forma pouco convencional: slide-guitar em jeito de drone music e tremolos contínuos e hipnóticos. Tudo isto devidamente enquadrado na habitual ambiência da banda, feita de estruturas sonoras geradas eletronicamente, utilização de desperdícios industriais, e onde emergem, aqui e ali, pontuais ritmos provocados pela deliberada repetição de loops, sem que este se tornem, alguma vez, verdadeiramente sincopados. Em suma, Zoviet France a soar a Zoviet France, ou seja, únicos. Como sempre.

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